quinta-feira, outubro 13, 2011

Dedos secos não viram páginas



Não é apanágio dos grandes campeões mundiais de boxe continuarem a socar quando o seu oponente está nocauteado no ringue. Isto porque há regras! E as regras dizem que o árbitro tem de contar até dez para declarar a vitória por KO.

Ora, eu não embarco no chorrilho de críticas que se abateram sobre Paulo Bento, vindas de diversos quadrantes da opinião pública e passando por Manuel José a Carlos Queiroz. Este último cometeu o despautério de insultar a inteligência dos portugueses que ainda se recordam dos 4-4 contra o Chipre e da derrota na Noruega. Paulo Bento fez 15 pontos em 18 possíveis, uma bela prestação. E também foi um dos culpados pela derrota a Dinamarca, mas não foi o principal.

O nosso selecionador é um disciplinador que não se afasta da sua cartilha. Foi um dos 23 convocados do Mundial de 2002 e assistiu de camarote ao regabofe de álcool, prostitutas e casinos com que a equipa técnica de António Oliveira e Professor Neca se ocupava no estágio de Macau. E assim, uma equipa que tinha tudo para ser umas das surpresas do Mundial, foi para casa mais cedo, batida sem apelo nem agravo por uns banais E.U.A. e por uma Coreia do Sul levada ao colo pela FIFA. E, na noite da derrota com a Coreia, abraçado a um Rui Costa em lágrimas, Paulo Bento surgiu nas câmaras a exteriorizar a sua revolta. Primeiro, pensou-se que o alvo seria o árbitro que expulsara João Vieira Pinto. Mas os jornalistas enganaram-se: o alvo era a centelha de caos e desordem que a supersticiosa equipa técnica espalhara pelo seu caminho.

Bosingwa, Ricardo Carvalho e Danny. Três figuras de proa que mereciam lugar de destaque com a camisola das Quinas e que foram afastados pelo rigor ordenado de Paulo Bento. O zairense, por fingir lesões. O amarantino, por questão de birra e o venezuelano, por não querer ver a sua vida atentada devido a ameaças que lhe chegaram de elementos afetos às claques do FCP devido à sua inusitada comemoração do golo no jogo da Liga dos Campeões.

É triste, mas nem Bosingwa, nem Carvalho nem Danny têm substitutos à altura. Num ápice, uma defesa de qualidade mundial formada por Bosingwa-Pepe-R.Carvalho e Coentrão foi substituída por J.Pereira-Rolando-Bruno Alves e Eliseu com enorme défice de qualidade. O raçudo lateral direito não ganha uma bola aérea, Eliseu ataca e esquece-se de defender provando que nem todos os extremos podem ser adaptados a laterais com eficácia, Bruno Alves é um lenhador com pujança física mas com a velocidade e posicionamento de um cágado com lúpus e Rolando...Bem, Rolando está igual aos tempos em que envergava a Cruz de Cristo do Belenenses. Estagnou, não tanto por culpa própria, mas se calhar pelas metodologias de treino do seu clube. Horrível na exibição contra a Islândia, monstruosamente ineficaz contra a Dinamarca.

Portugal não tem guarda-redes. Portugal não tem defesa. Portugal não tem um número seis de qualidade (até quando adiar a colocação de Miguel Veloso a titular?). Portugal não tem um sniper a atuar em Saragoça para acertar com balas de borracha no joelho de Postiga de forma a o arrumar definitavamente para o futebol. E assim vivemos de remendos, de força de vontade.

O nosso auge como Selecção viveu-se entre 1999-2000 e 2003-2006. Humberto Coelho soube sanear divisões de balneário e irritou quem não devia. Sem o saberem, José Mourinho e Scolari trabalharam em complementaridade. Com a chegada de Queiroz, recuamos aos tempos dos «amigos do Juca e do Ruy Seabra».

Paulo Bento não pode tentar tecer tapetes de Arraiolos a partir de mantas de retalhos esfarrapadas. O problema é estrutural, mas as eminências pardas que regem o futebol luso ainda não perceberam isso. Talvez quando a Bósnia de Dzeko e companhia nos deixar nús e humilhados na Praia da Vergonha, desaparecendo consequentemente os patrocínios de Nikes, Sagres e afins, é que alguém acordará...Tarde demais?

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