terça-feira, janeiro 24, 2006

Fernando e os Sapos de Marraquesh (Conto Infantil)



(Esta lenda faz parte da tradição e etnografia milenares da cidade de Figueira da Foz e foi-nos cedida graciosamente pelo egiptólogo Prof. Manuel Cajuda, tendo sofrido umas pequenas adaptações para melhor compreensão dos nossos pequenos leitores).

Fernando era um rapaz alegre, mas ingénuo que andava sempre com a cabeça na lua, imaginado mil sonhos e situações. Trabalhava na mercearia do Sr. Aprígio, pessoa muito estimada entre os pescadores da Figueira da Foz que carinhosamente chamavam a sua tasca de «Naval Primeiro de Maio».
Um dia, ainda a manhã tinha acabado de despontar, Fernando foi chamado pelo patrão:
- Fernando, tenho uma missão muito importante para ti: preciso que vás entregar este envelope a um velhinho que mora numa cabana no Pinhal do Papa.
Fernando engoliu em seco: desde a sua infância que ouvira dezenas de histórias sobre o Pinhal do Papa. O povo dizia que era um lugar assombrado, habitado por dragões e outros animais mitológicos, seres fantásticos que se comportavam de forma estranha e que seduziam os puros de coração que lá se atreviam a entrar. A sua avó já lhe tinha avisado: «Quem lá entra, nunca mais regressa a casa…»
Muito timidamente, o rapaz lá iniciou a sua odisseia. Depois de alguns minutos, avistou a vereda que assinalava a entrada do pinhal. Hesitou. O seu coração dizia-lhe para não transpor a entrada, mas a lealdade cega que tinha pelo seu patrão (que além disso tinha uma mão bastante pesada e dedos extremamente ossudos) fê-lo avançar. Para seu espanto, saíram da sombra das árvores quatro pessoas que pareciam amistosas, dois homens e duas mulheres, todos bastante louros e de cabelo comprido. Pareciam forasteiros. Fernando encheu-se de coragem e perguntou-lhes:
- Quem sois? Que me quereis?
O mais velho respondeu-lhe:
­- Nada temas, pequenote. Somos os ABBA e viemos da Suécia, um país muito distante. Soubemos que ias fazer esta entrega e resolvemos cantar-te uma canção para te dar forças e poderes continuar a viagem alegremente:
« Consegues ouvir os tambores, Fernando?
Lembro-me há muito tempo atrás
De outra noite estrelada como esta
Perto da lareira, Fernando
Estavas cantarolando para ti mesmo
E dedilhando suavemente a tua guitarra
Eu podia ouvir os tambores à distância
E sons de trombetas ecoavam lá longe

Agora os tambores estão mais perto, Fernando
Cada hora e cada minuto parece durar eternamente
Eu tinha tanto medo, Fernando
Tu eras jovem e cheio de vida. Nenhum de nós estava preparado para morrer
E não tenho vergonha em dizer
O som das armas e dos canhões quase fez-me chorar

Há qualquer coisa no ar esta noite
As estrelas estão brilhantes, Fernando
Estavam a brilhar para mim e para ti
Em nome da Liberdade, Fernando
Embora nunca pudesse pensar que perderíamos
Não há arrependimento
Se eu tivesse que fazê-lo novamente,
Fá-lo-ia, meu amigo Fernando »


Seguindo o som dos tambores, Fernando embrenhou-se no pinhal. Alguns passos depois, avistou três meninas muito bonitas, de tranças compridas, envergando blusas decotadas e mini-saias audaciosas. As três dançavam e cantavam de mãos dadas, fazendo uma rodinha. No centro, estava uma bandeira do Brasil. Movido pela curiosidade, Fernando aproximou-se e disse-lhes:
- Olá, eu sou o Fernando e vou entregar um envelope a um velhinho que vive aqui perto numa cabana. Conhecei-lo?
­­- Claro que sim – respondeu a mais velha-, é nosso patrão. Eu sou a Guimarinha e estas minhas amigas são a Silvaninha e a Calheirinha.
­- Posso saber os motivos de tanta alegria?- perguntou Fernando.
- Amanhã vamos de férias. Estamos tão felizes. – disse Calheirinha.
De repente, Fernando, que ainda era um moço virginal, sentiu o seu corpo encher-se de um calor infernal enquanto olhava para os seios palpitantes das moças, as suas coxas alvas e tronchudas e as suas nádegas redondas e firmes. Sentiu uma intumescência na sua zona genital e todos os seus músculos se contraíram num frémito de ardor e desejo. Tentou agarrar a Guimarinha por trás ao mesmo tempo que baixava os seus calções.
- Alto lá!! – gritou Guimarinha-, para te deitares com uma de nós, tens de nos dar quinhentinhos!!
- Euros?- retorquiu Fernando.
­- Pois claro! Havia de ser centímetros cúbicos de esperma, não?
­- Mas a única coisa que possuo de valor são estes cinco rebuçadinhos com sabor a café com leite que comigo trago no bolso…
­- Humpf!!- resmungou Silvaninha-, ainda se fossem rebuçados com sabor a fruta, podíamos fazer-te umas festinhas na tua malagueta, mas já que tens só isso, põe-te a andar!!
Envergonhado, Fernando subiu os calções e continuou a caminhar. Muitos passos depois, pareceu-lhe ouvir um coaxar de batráquios. Correu e viu três sapos gordos em linha recta que afinavam uma canção do Paul McCartney. Fernando dirigiu-se-lhes:
-Pela primeira vez na vida vejo sapos tão bem cantantes. Se me disserem que um de vós come a secretária e que outro já teve leucemia, diria que estava em presença dos Três Tenores. Quem sois?
- Croac! Eu sou o Sapo Pinto de Sousa.
- Croac! Eu sou o Sapo Rodrigues.
­- Urreabit! E eu sou o Sapo Devesa.
­- Somos os Sapos de Marraquesh!!- gritaram os três em uníssono.
- Parece-me que já ouvi falar de vós.- disse Fernando.
- É improvável!- respondeu o Sapo Pinto de Sousa-, Nós até há pouco tempo fomos homens e bastante importantes.
- Fomos até passar o reveillon a Marraquesh com o Papa- retorquiu o Sapo Rodrigues.
- Ele gostava tanto de nós- disse o Sapo Devesa-, estava sempre a convidar-nos para a sua cabana.
- O quê? O velhinho que vive na Cabana do Pinhal é o Papa? Tenho uma encomenda para lhe entregar!, disse alegremente o Fernando.
­ - Toma cuidado, porque ele é muito traiçoeiro -disse o Sapo Rodrigues-, assim que ele soube que nós tínhamos ido almoçar a Penafiel com o maior inimigo dele, lançou-nos uma maldição e transformou-nos a todos em sapos velhos e gordos.
­ - Eu não sou gordo, tenho é cartilagem espessa- interrompeu o sapo Devesa.
- Só se fores tu, porque eu sou tão gordo que olhando para baixo, só consigo ver os meus testículos quando o vento sopra em rajadas de Noroeste e eles balançam.- disse o sapo Rodrigues.
- Ah, esse barulho é dos teus testículos. Pensei que fosse algum catavento enferrujado aqui das redondezas- retorquiu o Sapo Pinto de Sousa.
Como viu que os sapos não paravam de discutir, Fernando afastou-se e continuou a caminhar. Caminhou tanto que parou extenuado junto a um campo de futebol onde dois rapazinhos jogavam futebol e um outro, sentado na bancada, chorava copiosamente. Fernando aproximou-se tentando consolá-lo:
- Quem és? E porque choras?
-­ Chamo-me Maciel e choro porque aqueles dois não me deixam jogar à bola.
- Porquê?
­- Disseram que é por opção técnica.
- E porque estás a segurar em quatro muletas?
­- As muletas são deles e só servem para disfarçar. Sempre que vão defrontar a equipa do Papa fingem lesões incapacitantes para não jogar contra o Papa.
Curioso, Fernando notou que as muletas tinham umas inscrições gravadas: «Para o Valente Diogo e o Bruno Vale Tudo, com amor e carinho do vosso Patrão, Papa PC».
Como já estava a ficar atrasado para entregar a encomenda, Fernando despediu-se de Maciel e correu em direcção à cabana. Não demorou muito tempo a chegar lá. Contudo, reparou que à entrada da cabana estava um senhor obeso com ar de transmontano emigrante, sentado numa cadeira de baloiço, segurando na mão direita uma carabina e na mão esquerda um cheque ao portador com uma comissão de 10%. A sua cara estava visivelmente inchada e medonha. Fernando abeirou-se dele.
­- Desculpe, é o senhor Papa?
­- Claro que não, sou o Guarda da Cabana, Vítor Diniz, ao seu dispor.
- Tenho uma encomenda para entregar ao Senhor Papa.
- Mas aqui só entra se souber a senha.
Fernando tentou inventar uns versos, podia ser que por um acaso da sorte conseguisse acertar:
O teu esfíncter sabe a mel
O teu marsapo a morango silvestre
Se me deres um T3 e um anel
Serei um bom passivo, meu Mestre

- Que cantilena é essa?- berrou Diniz-, Essa não é a senha!!
Fernando voltou a tentar:
O toque do teu prepúcio é igual a linho
Teu sémen espesso é lençol nas minhas camas
Podes chamar-me de Serginho
Durante as nossas Homo-Noites Marcianas

Perante o ar de desagrado de Diniz, Fernando lembrou-se que a senha poderia ser um gesto e não um conjunto de palavras. Olhando para a face inchada de Diniz, Fernando pregou-lhe um valente bofetão:
- Estava a ver que não!- disse Diniz-, Podeis entrar!
Fernando entrou na cabana. As paredes estavam impregnadas com um cheiro a espumante e reparou que nos sofás estavam espalhadas diversas cuequinhas de seda queimadas com buracos de charuto. Nisto, uma voz grossa ecoou:
­- Entra, meu rapaz!!
Fernando olhou para o fundo da sala. Refastelado na sua poltrona estava o Papa. Ajoelhados, beijando-lhe a mãos e limando-lhe as unhas dos pés, estavam os seus eunucos.
- Chumbita, Trindade Guedes, Carvalhal, Couceiro, Loureiro, Aguiar, deixem-nos a sós!- disse o Papa para os seus eunucos-, quero falar com este rapaz.
- Trouxe-lhe este envelope-, disse Fernando enquanto estendia tremulamente os braços.
O Papa abriu o subscrito e disse a Fernando:
­- Ora, mas este envelope é para ti. É um contrato de trabalho. Vais ficar a trabalhar para mim, mas emprestar-te-ei à Naval até ao final do ano, pagando-te o salário. Concordas?
- Sim-, respondeu Fernando. Seria uma honra!
- Mas antes terás de passar num pequeno teste. Vem comigo.
O Papa conduziu Fernando a uma sala mais ampla onde estavam duas balizas. Uma era defendida por um Pato com porcas e parafusos no joelho e a outra baliza era defendida por um colega seu da Naval, o Taborda.
-Aqui tens uma bola. Agora escolhe a baliza para onde vais chutar. Se acertares, ficarás a trabalhar para mim-, disse o Papa.
Fernando olhou para o Pato e olhou para Taborda. Então, fechou os olhos e rematou para a baliza defendida por Taborda, fazendo a bola entrar.
- Bravo, meu rapaz. Grande autogolo! Bem-vindo à nossa organização.
E todos viveram felizes para sempre.

Moral da História: não é só a Madonna que sabe escrever contos infantis…
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