quinta-feira, janeiro 06, 2005

Pôncio Monteiro e o Share do Canal Parlamento

Confesso: sou um adepto inveterado do humor «nonsense». Gosto de rir inteligentemente, ponto final. Ganhei esta mania em meados da década de 90, quando na nossa televisão havia programas cómicos decentes: na RTP, havia a reprise dos velhinhos episódios dos Monty Python, Rowan Atkinson e o seu Mr. Bean, na TVI, o sempre viciante Seinfeld e na SIC… os DONOS DA BOLA!!! Sim, Pôncio Monteiro foi um dos mentores desta nova vaga de comédia nacional contemporânea e, como qualquer visionário, foi um génio incompreendido. Tão incompreendido que ainda hoje acho estranho deslocar-me a qualquer loja da FNAC e não ver nenhum DVD dos maiores sketches de Pôncio Monteiro ao lado dos DVDS do Gato Fedorento e da série 1 do Allô Allô.
Pôncio Monteiro não caía na tentação da graçola brejeira e era isso que produzia o encanto de Os Donos da Bola. Ele protagonizava os seus números emprestando aos textos uma pseudo-credibilidade que ainda acentuava mais a irreverência cómica dos seus sketches. Quem não se recorda do episódio «Viagens ao Brasil de Carlos Calheiros» quando, no decorrer do programa, Pôncio Monteiro, gaguejando compulsivamente tentou convencer o auditório de que tudo não teria passado de um erro dos serviços contabilísticos do F.C. Porto? Mas, quando a qualidade dos argumentos começou a piorar, como grande comediante que era, Pôncio não decepcionou os seus fãs e abandonou a SIC. Não ficamos privados do seu talento por muito tempo. Paulo Catarro precisava de comediantes para um programa de sketches da RTP originalmente intitulado «Jogo Viciado». Pôncio Monteiro imediatamente aceitou o desafio de mamar na teta pública de uma televisão paga pelos contribuintes e apenas exigiu como contrapartida a mudança do título do programa para «Jogo Falado», de forma a poder agradar a todas as facções do público. A fórmula do programa assemelhava-se bastante aos velhinhos filmes dos Três Estarolas: havia o Sério (Fernando Seara), o Burro (Pedro Santana Lopes) e o Cómico (Pôncio Monteiro). E durante dois anos, o humorista portuense deu largas ao seu talento, tornando imortais a rábula da «Teoria da Intensidade» ou «Vítor Baía pode defender a bola com as mãos fora da grande área e levar apenas cartão amarelo, porque a jogada não levava perigo, pelo menos assim me afiançou o António Garrido que é insuspeito». Brilhante…
Contudo, fiquei aliviado quando soube que Pôncio Monteiro não iria integrar a lista de candidatos a deputado do PSD pelo círculo do Porto. É verdade que sou benfiquista, socialista (às vezes) e um admirador fervoroso do trabalho do Dr. Rui Rio, mas a principal razão é esta: sou um dos principais lutadores do Movimento pela Legalização da Sesta. Não estão a perceber a ligação? Eu explico: sou teledependente e até para dormir preciso da minha televisão. Haverá prazer mais supremo quando, depois de um lauto almoço de cozido à portuguesa ou favas com toucinho, poder estirar-me por completo no meu sofá para dormir uma sestazinha de 45 minutos? Ligo a televisão para chamar o sono e começo o zapping. SexyHot? Nããã… Quando as enzimas digestivas estão a trabalhar arduamente, a pornografia torna-se nojenta e além disso, não me chamo Calígula… A resposta é: CANAL PARLAMENTO!! Ouvir as intervenções de deputados tão célebres e profícuos como Gustavo Carranca e Heloísa Apolónia a discutir sobre a inconstitucionalidade de um decreto-lei é um bálsamo reconfortante e mais saudável do que uma caixa de Xanax ou de Prozac. Está provado cientificamente que dormir ao som do Canal Parlamento aumenta as probabilidades de ter sonhos eróticos e confesso que, com o advento da Quinta das Celebridades, o meu córtex cerebral expulsou a Angelina Jolie e a Jennifer Lopez, pelo que os meus sonhos acabavam sempre com a Mónica a mordiscar-me a orelha e a Paula Coelho a fazer-me fellatio.
Ora, com a eleição para deputado do Dr. Pôncio Monteiro, essas sestas paradisíacas acabariam. Devido à sua provecta idade, as probabilidades de ser escolhido para Presidente da Assembleia da República eram grandes e depois, quando ocorressem votações, o dr. Pôncio escolheria para secretários o Madureira e o Hélder dos SuperDragões e toda e qualquer votação acabaria assim: « Quem vota a favor do projecto-lei número 333 barra 2005 SLB, SLB, SLB,SLB, SLB, Filhos da P…, quem vota contra, SLB, Filhos da P… Allez, Allez, Quem se Abstém?». Ou então, quando se reunisse a 468ª Comissão de Inquérito do Acidente de Camarate, os deputados da mesa teriam de se desviar das bolas de golfe voadoras ou das cuspidelas ranhosas do Hélder. Ou, por muito improvável que fosse, se o Presidente da República quisesse fazer uma Presidência Aberta no interior e para esse efeito, levar uma comitiva de deputados em autocarros de luxo? Já estou mesmo a ver o gerente da Estação de Serviço de Figueira de Castelo Rodrigo a dirigir-se ao Dr. Jorge Sampaio nestes termos: «Vossa Excelência desculpar-me-á a impertinência, mas quem me vai ressarcir dos 340 pacotes de batatas fritas furtados, da arca frigorífica destruída a pontapés, das sanitas rachadas a golpes de socadeira e dos uniformes rasgados e com vestígios de esperma das duas empregadas de mesa espanholas que estavam aqui no âmbito de um protocolo com o Alcaide de Salamanca e que foram violadas repetidas vezes e com requintes de sadismo?». Ao que o mais alto magistrado da Nação responderia: «Faço um apelo à sua serenidade e capacidade de compreensão. Como vê, não há nada a fazer…Eles têm imunidade parlamentar…».
Se tudo isto fosse transmitido no Canal Parlamento, como conseguiria dormir a minha sestazita? Ainda por cima, quando a Paula Coelho aprendeu, finalmente, a fazer movimentos giratórios com a língua...
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