quinta-feira, janeiro 07, 2016

Treinador de fundos

A que obedece a contratação de Lopetegui?
Estou convicto que a vinda de Lopetegui para o FC Porto obedeceu a uma lógica de mercado, mais do que desportiva. Só isso explica a sua contratação, numa altura em que se impunha uma mudança efetiva no banco do Porto, após o fracasso da contratação de Paulo Fonseca. A opção recaiu então sobre o Espanhol, que até então não tinha treinado ainda qualquer clube (apenas seleções de sub’s espanholas) – e cai numa equipa que, para todos os efeitos, iria disputar a Champions.

A contratação de Lopetgeui marca também uma viragem na política de contratações do clube: a aposta no mercado Sul-Americano, que até então tantos frutos tinha dado (Danilo, Falcão, Guarin, Jackson Martinez… por exemplo), é substituída pela aposta em jogadores formados na Europa e quase todos com ligações a Espanha (Adrián, Tello, Óliver, Casemiro, José Angel, Marcano, Brahimi… ). Esta “aposta” no mercado Espanhol é natural, tendo o novo treinador um conhecimento profundo deste mercado, principalmente ao nível da formação, atendendo aos anos em que desempenhou as funções de selecionador nacional de sub-20 e sub-21, e com bons resultados.

O problema começa a agudizar-se, no entanto, a partir do momento em que muitos destes jogadores chegam emprestados, mantendo por isso uma espectativa forte de poderem voltar aos seus clubes de origem (como já aconteceu com Óliver e Casemiro, por exemplo). O caso de Tello é até caricato, por se tratar dum empréstimo a longo prazo (2 ou  3 anos). A juntar a tudo isto, alguns destes jogadores chegam com estatuto de promessas adiadas, nunca conseguido provar o seu hipotético valor.

A contratação de Adrián foi o primeiro grande erro de Lopetegui, que se empenhou pessoalmente nesta compra, com resultados dramáticos: apesar de caro e com estatuto, o jogador nunca foi uma opção efetiva, roçando o medíocre. Começou esta época emprestado a um clube espanhol, como solução de recurso para um problema bem maior (o investimento na sua contratação foi uma das maiores de sempre).

Com um final de época desastroso, sem vencer qualquer título, esperava-se que esta época Lopetegui fosse finalmente singrar no clube, tendo já como experiência adquirida uma época de adaptação ao futebol nacional. Ainda por cima, numa altura em que os dois grandes rivais (Benfica e Sporting), resolvem trocar de treinadores, e entram numa guerra fratricida entre eles, por causa da mediática questão “Jesus”…

Porquê manter Lopetegui?
Apesar de não ter tido resultados desportivos, a SAD do FC Porto, como que alheia a tudo isso, regista o seu melhor ano de sempre em termos financeiros, com vendas assinaláveis de jogadores como Jackson Martinez (Atlético de Madrid), Danilo e Casemiro (Real Madrid), Alex Sandro (Juventus), Quintero e Quaresma, ultrapassando a mítica fasquia dos 100 milhões de euros em transferências de jogadores.

Munido deste reforço financeiro, Lopetegui recebe, mais uma vez, um cheque em branco para reforçar o plantel, apostando, mais uma vez, em jogadores com ligações a Espanha (Bueno e Casillas), ilustres desconhecidos (Layún, Corona e Imbula), e um novo joker (Pablo Osvaldo). A juntar a este leque, vieram jogadores com ligações ao campeonato português (Maxi, Cissokho, Sérgio Oliveira e Varela), estes provavelmente impostos pelo SAD ao “treinador”.

Neste leque de jogadores, é difícil encontrar uma linha lógica, o que começa a ser típico nas contratações da "era Lopetegui". Alguns jogadores já são verdadeiros flops (Cissokho, Pablo e Bueno), outros verdadeiras incógnitas (Imbula e Corona), e outros grandes trunfos (Maxi, Danilo e Layún), faltando assim perceber qual o mérito e responsabilidade do “treinador” nas mesmas.

Num momento em que já é claro que Lopetegui só está no clube por razões extra desportivas, importa perceber então porque razão a SAD resolve manter um treinador que em 18 meses apenas conseguiu liderar o campeonato isolado uma vez (na semana antes de ir a Alvalade), o que é manifestamente pouco para um clube com a história e pergaminhos do Dragão.

Tal como Nuno Espírito Santo, que passou do Rio Ave para o Valência, como por artes mágicas, também Lopetegui teve no Porto a oportunidade de treinar um clube que aspira sempre a vencer todas as competições em que participa. Não parece é talhado para esses voos, cabendo agora aos responsáveis pela sua contratação as explicações para a sua manutenção, sem resultados (desportivos) visíveis.

O que representa Lopetegui
Tenho para mim que o Espanhol é um testa-de-ferro de um qualquer fundo oculto, que deposita nele a confiança necessária para operar contratações, interceder junto de jogadores (familiares e empresários incluídos), identificar possíveis alvos, facilitar negócios e preparar futuras vendas milionárias. As ramificações deste fundo ao clube são já de tal maneira densas, que se confundem os protagonistas, havendo claramente ligações promíscuas entre dirigentes e investidores. Mas deixo isso para outro texto.

Assim se explica as contratações de jogadores espanhóis que nunca conseguiram se afirmar nos seus clubes (Tello e Óliver, por exemplo), e que só vieram para a Invicta porque Lopetegui interveio. Assim se explica contratações milionárias de jogadores medíocres (Adrián, Bueno e Osvaldo), na esperança que com o Espanhol pudessem vir a render milhões. Assim se explica a contratação de Casillas, caído em desgraça em Madrid, e que viu nas Antas a possibilidade de continuar por mais alguns meses a sua carreira. Assim se explicam os empréstimos a médio e longo prazo de jogadores, coisa nunca antes vista para os lados do Dragão. Assim se explicam os fenómenos Imbula e Brahimi, jogadores desconhecidos praticamente de todos em Portugal (que chegam já com passes inflacionados), e que rapidamente se tornaram também eles alvos apetecíveis para os tubarões da Europa.

No fundo o que Lopetegui faz é gerir um gigantesco entreposto comercial de jogadores, organizando a entrada e saída de ativos, a mando de alguém, de forma a rentabilizar investimentos, gerir expectativas e avivar fluxos de investimento.
Faz isso tudo, menos treinar uma equipa. Porque para isso o Porto não precisava de fundos, de agiotas ou de testas de ferro. Pedroto treinava á chuva e ao frio, e chamava os seus jogadores de filhos. Idealista? Saudosista? Talvez. Mas sempre apaixonado pela bola na relva, sem confundir isso com jogos de bastidores ou alta finança.

Lopetegui cumpre a função para a qual foi contratado. Quem o colocou lá deu o seu dinheiro por bem empregue. O embaraço para a SAD começa agora: o povo quer mais. Quer ver futebol. Quer sentir o clube. A crescente contestação ao “treinador” (se assim se pode chamar ao Espanhol), leva ao descrédito dos adeptos, á quebra do número de espetadores no estádio, ao insulto fácil, ao lenço branco e ao assobio. Seguem-se as bancadas vazias.

Mesmo para quem gere milhões numa secretária, isto acaba por não ser agradável… e fará mossa. Afeta os patrocinadores, atiça a imprensa. Nos seus escritórios de marfim, os investidores começam a ficar nervosos… os telefones começam a tocar… interrompem os jantares de negócios… forçam mais viagens… convocam reuniões…

Como será no futuro?
O próximo “treinador” terá como missão unir as massas, dar alegrias ao povo e colocar uma equipa em campo que saiba (ou queira) jogar á bola.

Mas para isso não contem com o Espanhol. Não é essa a sua função. Ele veste fato e gravata. Veste camisas caras, de seda, com colarinhos brancos. No fundo é apenas um funcionário duma organização maior. Não confundir com o vulgar treinador. Esse regressa dentro de pouco tempo… espero eu.

Nota: não me surpreenderia nada ver Lopetegui a “treinar”, em breve, um grande em Espanha… a lógica dos mercados domina o futebol mundial. Quem ainda não se apercebeu disso terá muitas desilusões daqui para a frente.

Sem comentários: