Há um período na História em que qualquer ideologia, seja ela religiosa, étnica ou desportiva, enfrenta uma conjuntura de crise interna que conduz à degeneração dos seus princípios norteadores. Por exemplo, em 325, os alicerces do Cristianismo primitivo foram irremediavelmente abalados pelo Concílio de Niceia onde o dogma da divinização de Cristo é decidido por...votação e são dados passos sólidos para o crescimento do poder financeiro secular.
O paralelismo de Niceia poderá também aplicar-se ao portismo enquanto crença e ideologia desportiva. O melhor exemplo de portismo encontro-o no meu progenitor, ainda vivo e de boa saúde. Frequentou o campo da Constituição, vibrou com treinadores como Dorival Yustrich e José Maria Pedroto e festejou orgulhosamente a primeira Taça dos Campeões Europeus. Quando, em inícios dos anos 90, começaram a dar à luz os primeiros relatos de corrupção associados ao FCP, o meu pai esmoreceu. As arbitragens que José Guímaro, Donato Ramos e Marques da Silva usavam para beneficiar os seus interesses pessoais eram branqueadas pelos resumos editados pela equipa da RTP-Porto e depois exibidos de forma truncada no Domingo Desportivo, passando uma esponja sobre os erros favoráveis aos «azuis e brancos». E, um dia, no distante ano de 1995, o meu pai chegou a casa e proferiu a sentença: «Vou deixar de ser sócio, nunca mais ponho os pés nas Antas». O FCP havia acabado de ganhar 1-0 ao Farense através de uma célebre grande penalidade que Peter Rufai não conseguiu defender pois os SD haviam lançado um petardo para a baliza, tendo o árbitro Mário Leal sancionado o golo,
Quase simultaneamente, o FCP havia perdido um portista para ganhar milhares de «porquistas». No meu léxico, um porquista é aquele que não olha a meios para atingir os seus fins, orgulhando-se dos caminhos tortuosos com que a sua Direcção conseguiu ultrapassar o «inimigo mouro» em número de títulos oficiais. É o caso de adeptos famosos como Manuel Serrão, Guilherme Aguiar, Miguel Guedes e outros que usam tempo de antena para tentar branquear todo o lamaçal que se vive em Contumil.
Quando leio a análise que o meu ilustre amigo José Pinto fez sobre as insuficiências internas do Benfica, tentando branquear o que de mal Carlos Xistra fez em Coimbra, recordo-me daquele célebre jornalista desportivo (ainda vivo) que, em Outubro de 1993, fez uma brilhante análise da derrota do Benfica em Setúbal (2-5), utilizando os mais eloquentes silogismos para colocar a nú as debilidades defensivas dos encarnados, encerrando a sua crónica com um elucidativo«Não assisti ao jogo, mas é a ilacção que tiro através do resumo que vi na RTP.»
Eu também poderia promover a demagogia e dizer que o Beira-Mar, apesar de não ter ultrapassado a sua linha de meio-campo defensiva, poderia ter empatado com o Futebol Clube do Porto, não fosse os 4 golos que sofreu, mas o certo é que não assisti ao encontro por achar o resultado final extremamente previsível.
Reduzir o Benfica às perdidas de Cardozo, ao desnorteamento do meio-campo e à falta de Luisão escamoteia e branqueia o mais importante: os únicos lances de perigo à baliza de Artur foram criados por Carlos Xistra. E sem essas duas grandes penalidades inexistentes, mais aquela que não foi marcada a Nolito, estaríamos perante uma vitória gorda do Benfica. Mas não: na semana seguinte a uma homenagem promovida por Lourenço Pinto (onde é que já vimos este filme?), o Benfica volta a ver a verdade desportiva a ser adulterada a seu desfavor para depois virem os porquistas do costume afirmarem «Mas quem ganhou o campeonato fomos nós!»
Reduzir o Benfica às perdidas de Cardozo, ao desnorteamento do meio-campo e à falta de Luisão escamoteia e branqueia o mais importante: os únicos lances de perigo à baliza de Artur foram criados por Carlos Xistra. E sem essas duas grandes penalidades inexistentes, mais aquela que não foi marcada a Nolito, estaríamos perante uma vitória gorda do Benfica. Mas não: na semana seguinte a uma homenagem promovida por Lourenço Pinto (onde é que já vimos este filme?), o Benfica volta a ver a verdade desportiva a ser adulterada a seu desfavor para depois virem os porquistas do costume afirmarem «Mas quem ganhou o campeonato fomos nós!»
Pudera...
Portugal tem o único campeonato do Mundo onde o campeão é decidido à quarta jornada por alguém que não usa caneleiras...


1 comentário:
Senhor Daniel, o seu comentário foi eliminado por apresentar referências pessoais incorrectas e que raiam o insulto. Boa sorte para apanhar o metro para Contumil.
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