
Bem sei que devo, de forma prosaica, vangloriar os feitos do meu eterno clube. Contudo, o fel da meia noite faz-me reflectir nos seguintes parágrafos:
Com mais ou menos pontos perdidos, com maiores ou menores manifestações de desagrado dos adeptos, os responsáveis leoninos não mudam nada. Nem à lei da bala.
Treinador, director-desportivo, SAD ou jogadores, todos fazem parte da solução e nunca do problema já identificado (mas não partilhado com os adeptos). E tudo vai continuar assim até 28 de Novembro, dia da recepção aos cabeçudos do cretino.
São cada vez mais as vozes que acusam os dirigentes de autismo. Sempre em surdina.
Mas as críticas aumentam e o pós-jogo ante o Marítimo foi apenas a expressão irracional de um sentimento de revolta crescente com o acumular de resultados negativos na Liga.
Para espanto de alguns e alívio de outros, a continuidade de Paulo Bento foi falada entre a flash interview do técnico e a conferência de imprensa. E assim se explica os diferentes conteúdos das intervenções: primeiro o treinador deixou, no mínimo, a porta de uma eventual saída entreaberta; depois fechou-a a sete chaves como tem vindo a fazer.
Bento, que costuma motivar os jogadores com histórias e números, recorre às vezes ao exemplo do Titanic no balneário. "O que mais me enervou no filme foi quando os barcos de salvamento começaram a descer com mulheres e crianças e houve um elemento que se infiltrou", frisou.
É essa a música que vem para o exterior e o último exemplo veio do carregador de piano da equipa, João Moutinho. "Despedir o treinador era a pior coisa que podiam fazer. Sem ele, o Sporting perderia tudo", defendeu.
Filme já antes visto Titanic só houve um mas aquilo que se está a ver em Alvalade já começa a ter traços comuns ao período de contestação que levou à demissão de Dias da Cunha e José Peseiro.
Há diferenças - a imagem de Bettencourt enquanto presidente está bem mais preservada, os leões seguem vitoriosos na Europa e foram ganhando troféus - mas também semelhanças: Bento não está menos desgastado do que o antigo treinador, os resultados no campeonato até são piores e, imagine-se, a onda de protestos que varreu Alvalade na noite de domingo é muito maior do que aquela que levou, em Outubro de 2005, todo o edifício lisboeta a cair. Sobretudo em termos internos, as fissuras que se vão criando começam a ser evidentes.
Porque não há chicotadas psicológicas em Alvalade? Três razões: quem manda no futebol acredita que a prestação da equipa, mesmo com outro empate, foi melhor, e há uma secreta esperança de vitória no dérbi com o Benfica (que poderia inverter o rumo da temporada); apesar de a mensagem não passar como nos outros anos, a defesa pública do técnico feita pelos jogadores leva a crer que todos ainda rumam para o mesmo lado; e, sobretudo, a relação entre Bettencourt, Bento e Barbosa. Esta é a vitamina B que nenhuma doença ou resultado desfavorável consegue atingir.O primeiro B tenta desviar atenções, o segundo B dá o corpo às balas, o terceiro B é, acima de tudo, próximo do segundo B. E também do primeiro.
Mas quando se passar dos filmes para a televisão e do Titanic para o jogo do elo mais fraco, é pelo lado do director-desportivo que a corda deve partir. O que acabará, inevitavelmente, por fragilizar o treinador.
A política de recrutamento de jogadores e gestão de activos tem merecido grande contestação interna. O Sporting vai atacar o mercado em Janeiro e o empréstimo de Quaresma é apenas uma das apostas que estão em cima da mesa. Mas isso pode não salvar o cargo de Barbosa.
"Foram reacções exageradas e despropositadas, mas compreendo a insatisfação geral. O modelo da SAD está ultrapassado", argumenta Silva e Costa, vice-presidente da direcção no elenco de Filipe Soares Franco.
"Tem de haver mais profissionalismo e mais pessoas ligadas ao futebol para gerir os activos de uma outra forma, criar mais valores e entrar na rotação virtuosa de activos. Adoptar boas medidas avulsas agora não resolve o problema de fundo que está instalado."
Rogério Alves, actual líder da Assembleia Geral da SAD, mostra-se também preocupado: "É preciso resolver os problemas urgentemente e sem haver caça às bruxas. A equipa tem problemas motivacionais, de ordem técnica e até física."
São exigidas mudanças, de nomes ou modelos estruturais.
Mas é exactamente isso que não vai acontecer.
Pelo menos até dia 28. Dia dos Cabeçudos!

Sem comentários:
Enviar um comentário