quarta-feira, janeiro 12, 2005

Morreu o Profeta


Tinha nome de imperador romano: Domiciano. Foi-o nos campos ainda pelados, com o nome de guerra de Cavém. Eram tempos de semi-profissionalismo em que os apitos ainda não eram dourados, em que os árbitros não iam ao Brasil passar férias mas antes escolhiam a praia mais próxima. Eram tempos em que as claques não eram organizadas nem ameaçavam de morte os seus treinadores. Eram tempos em que, com uma nota de «quinhentinhos» podia-se sustentar uma família numerosa durante seis meses. Eram tempos em que os Martins eram verdadeiros santos e os Olegários aspiravam às benquerenças do povo. Em 1954, chegava ao Benfica um jovem de Alcobaça que tinha espalhado o perfume do seu futebol na 2ª Divisão. Actuava a extremo-esquerdo e impressionou Otto Glória pela sua rapidez. Depressa se impôs na equipa, mas com o passar dos anos, foi recuando no terreno. Na época 1959-60, quando Bella Guttmann trocou o FC Porto, descobriu em Cavém dotes de lateral-esquerdo. Era temperamental quanto baste e até nos treinos brindava colegas com insultos quando não lhe endossavam o esférico nas melhores condições. Numa equipa em que faltavam estrelas, derramava suor e incentivava os seus colegas. No dia 2 de Maio de 1962, disputava-se a final da Taça dos Campeões. O Real Madrid era o claro favorito mas o Benfica era o campeão europeu em título. Na véspera do jogo, Guttmann ordenara que todos os jogadores se deitassem às nove e meia em ponto. Cavém custou a adormecer, estava agitado. O mister tinha-lhe dado uma tarefa quase impossível: marcar Di Stefano, provavelmente o melhor jogador do Mundo à época. Quando adormeceu, sonhou com uma figura profética e misteriosa que lhe deu conselhos sobre como secar a estrela hispano-argentina. Seria Deus? Cavém nunca o admitiu para evitar polémicas com a Santa Sé. Afinal, toda a gente sabe que Deus é benfiquista e Satanás veste de azul e branco. Quando o jogo acabou, o Benfica venceu por 5-3. Consta que Di Stefano raras vezes tocou na bola…
Foi 9 vezes campeão nacional. Duas vezes campeão europeu. Ganhou quatro taças de Portugal. Pelo seu clube de sempre. De sempre e sempre. O Glorioso. A velhice encontrou-o humilde, quase olvidado. Mas volta e meia, era presença constante em festas das Casas do Benfica onde os netos puxavam pela manga dos avôs e perguntavam «Quem é aquele senhor?» Ao que os avôs respondiam: «Aquele senhor era um jogador que ganhava cem escudos por mês e que jogava em qualquer posição do terreno, às vezes com um dedo do pé partido ou com um joelho torcido». Cavem é como o Benfica. Por muito que o ataquem, será imortal. Obrigado, Domiciano.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Por detrás da rede


Ao ver Giovanni Trapattoni, num treino do Benfica, discutir com os adeptos que o insultavam e perturbavam o trabalho da equipa, lembrei-me de prestar uma homenagem a esses heróis anónimos que defendem o seu clube intransigentemente, longe dos holofotes da fama e das luzes das câmaras, à chuva e ao vento, todos os dias e em qualquer lugar: os homens por detrás da rede.

Treinadores de bancada há muitos, nos cafés e na rua, mas são aqueles que assistem aos treinos, durante a semana, que faltam ao trabalho (ou que não trabalham, ou cujo trabalho é faltar ao trabalho), e que optam por ir ao estádio quando toda a gente vai para a praia ou para os shoppings, são esses, os indefectíveis adeptos que assistem aos treinos da equipa, que têm o meu reconhecimento.

São eles os verdadeiros defensores do templo, são eles que asseguram a mística, são eles que põem ordem no balneário, são eles, no fundo, os verdadeiros capitães. São também eles que dão cor ao futebol: a imagem de um desses “cromos”, de cara prostrada na rede, debaixo de um sol abrasador, com um lenço na cabeça – a arte de transformar um vulgar lenço numa sofisticada protecção para o couro cabeludo, com pequenos nós nas 4 pontas, foi desenvolvida por esta tribo do futebol e está hoje infelizmente em vias de extinção – enquanto fumava o seu kentucky (vulgo mata-ratos), faz parte das recordações que guardo religiosamente no meu baú de recordações. As suas teorias sobre a bola, misturadas com as maiores barbaridades sobre este ou aquele jogador, são o sumo que alimenta as páginas dos jornais e dão emprego a milhares de jornalistas em todo o mundo.

São estes homens que inspiram os nossos humoristas (lembram-se do cromo fantástico Zé Manel da Maria Rueff, onde acham que ela foi buscar inspiração?), e até já temos políticos a seguir essa filosofia (o Morais Sarmento é o primeiro de uma nova geração de políticos que, apesar de não perceberem nada de nada e não serem especialistas de nada mandam postas de pescada sobre tudo e mais alguma coisa).

Fica a minha homenagem a esses guerreiros do futebol, que encontram sempre um tempinho para ir até ao estádio do seu clube, durante a semana, e insultar os jogadores e treinadores que por lá andam. Acima de tudo são um exemplo para o país: eles mandam os outros trabalhar, quando passam as tardes a ver treinos e a mudar as pilhas do rádio. Entre eles encontram-se das mais diversas figuras da nossa praça, como taxistas, cauteleiros, empregados de mesa, desempregados, contínuos, arrumadores (estes por vezes deslocam-se a mais do que um estádio, não desenvolveram ainda a aptidão da fidelidade clubística), chulos (vêm ver os seus primos, privilegiados, que conseguiram lugares de destaque nas SAD ou nas equipas técnicas), indiferenciados, bolsistas (rendimento mínimo, pensões de invalidez, baixas e todo o tipo de esquema fraudulento da Segurança Social), entre outros, tantos que por vezes me pergunto porque razão os políticos, quando em campanha, não passam por lá, pelos campos de treino, pois ali pulula uma sociedade muito mais dinâmica e interessante do que nos mercados e feiras, alvo fácil em tempo de eleições.

Uma última palavra para Álvaro Magalhães, figura enigmática do Benfica, que puxou pelo braço de Trapattoni enquanto lhe sussurrava: “anda-te embora que eles têm razão”. Também ele, um visionário, sabe que os homens por detrás da rede têm razão, e que, mais cedo ou mais tarde, a sua sapiência lhes cairá em cima. Até lá, resta-lhes parecer ocupados e que percebem do assunto... tanto como os homens por detrás da rede.

domingo, janeiro 09, 2005


Identificados os assaltantes que roubaram as obras de Münch

Numa acção conjunta da Interpol com a Polícia Nacional Norueguesa, foram ontem divulgados aos meios de comunicação mundiais os retratos dos principais suspeitos do furto de diversas obras de arte do pintor Edward Münch em Agosto passado, entre elas, o célebre «O Grito». Depois de apuradas investigações, foram apontados como suspeitos duas pessoas com um largo passado criminal na Escandinávia: Oleg Härio Benkeresson de 35 anos e Jan Duarthor Gomesth de 32 anos, ambos ainda de paradeiro desconhecido. Estes dois perigosos facínoras pertencem a uma quadrilha conhecida em Oslo como o temível gang Pinthö, cujos cabecilhas são três irmãos: Jorgensen Nunoth, Lorensson e Aadriano que se especializaram no desvio de fundos autárquicos e na falsificação de resultados desportivos durante os anos 80 e 90. A Interpol é da opinião que as obras de arte furtadas ainda continuam intactas e considera que a quantidade de efectivos policiais envolvidos nesta operação «Silkebjorg Veljenäaene» (Apito Dourado, em Norueguês) levarão a investigação a bom termo. Uma das últimas pistas partiu de uma denúncia anónima que informou as autoridades policiais de que Benkeresson e Gomesth abandonaram a Noruega há já quatro meses, radicando-se num país europeu ibérico ainda não descortinado, onde terão assumido uma nova identidade e profissão, suspeitando-se que estejam ligados à arbitragem futebolística. Posted by Hello

Última Hora: Benfica Severamente Multado pela FIFA

DE: AGÊNCIA LUSA (ENVIADO ESPECIAL NOÉ MONTEIRO)

09/01/2005- O Comité Executivo da FIFA reuniu-se de emergência aqui em Zurique para analisar uma queixa efectuada por Luís Guilherme, Presidente do Conselho de Arbitragem da Liga Portuguesa de Futebol, contra o Benfica, na pessoa dos seus dirigentes Luís Filipe Vieira e José Veiga. Segundo conseguimos apurar, Joseph Blatter recebeu nas primeiras horas da manhã um fax assinado por Luís Guilherme e Vítor Reis, dirigente máximo da APAF, onde eram apresentadas diversas queixas contra Veiga e Vieira. Segundo fonte privilegiada, poucos minutos após o término do Sporting- Benfica que redundou na vitória dos visitados por 2-1, José Veiga telefonou a Luís Guilherme e demonstrou a sua indignação com a expulsão de Alcides por simulação de Liedson, alegando que esse lance foi decisivo na reviravolta do resultado. Após uma troca acesa de palavras, Luís Guilherme afirmou que o árbitro Duarte Gomes limitou-se a aplicar as leis internacionais de jogo e ameaçou Veiga com uma exposição à FIFA.
Pelas oito horas da manhã, uma equipa de peritos de arbitragem, liderados pelos antigos árbitros internacionais Michel Vautrot, Andreas Frisk e Mário Van der Ende, reuniu-se para analisar o fax de Luís Guilherme. Após 6 horas de apurada pesquisa, resolveram parabenizar os árbitros internacionais portugueses Olegário Benquerença e Duarte Gomes pelas corajosas decisões tomadas contra o Sport Lisboa e Benfica, nomeadamente a não-validação do golo a Petit no jogo contra o Futebol Clube do Porto e a correcta expulsão de Alcides no jogo contra o Sporting. Numa conferência de imprensa, Michel Vautrot referiu: «No futebol moderno, nem todas as situações de jogo estão contempladas nas leis de arbitragem. De facto, estivemos a pesquisar todas as Leis de Jogo e após uma primeira análise, estivemos inclinados a dar razão ao Benfica. Mas, pouco antes do término da reunião, um dos nossos consultores técnicos, António Garrido, consultou um compêndio auxiliar de arbitragem de muita utilidade intitulado “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll. De facto, segundo uma expressão do Chapeleiro Maluco, «Toda e qualquer bola que ultrapasse a linha de baliza deverá imediatamente ser considerado lance de golo, exceptuando casos em que o nível de humidade relativa no relvado ultrapasse os 70% e em que a bola seja retirada de dentro da baliza por guarda-redes que já tenham feito um mínimo de duas operações ao joelho». Quanto ao lance da expulsão de Alcides, Michel Vautrot socorreu-se da chamada «Norma Humpty-Dumpty», celebrizada por Lewis Carroll: «Qualquer lance de ataque protagonizado por um avançado de características móveis e velozes, em que esteja rodeado por três ou mais defesas contrários, deverá finalizar na expulsão do defesa de menor idade, mesmo que o avançado simule a queda, isto tudo em benefício do espectáculo.» Instado por um jornalista britânico sobre se o golo de Pedro Mendes contra o Manchester United seria sancionado pela FIFA, Vautrot foi peremptório: «A Expressão do Chapeleiro Maluco aplica-se neste caso. A humidade relativa em Old Trattford nessa noite era de 83%, portanto o golo não poderá ser sancionado.»
Finda a conferência de imprensa, a FIFA anunciou sanções contra o clube da Luz: aplicou-lhe uma multa de 30 mil francos suíços pelo facto de o Benfica ter tentado desmascarar a incompetência dos árbitros portugueses e sugeriu a Luís Guilherme que nomeasse os seguintes árbitros para os jogos que envolviam o Benfica: António Costa para o Benfica- Boavista da 17ª jornada, Carlos Xistra para o FC Porto-Benfica da 23ª jornada e Paulo Paraty para o Benfica- Sporting da 33ª jornada, recomendando a esses árbitros que pautassem as suas actuações em nítido prejuízo do Benfica por este ter tentado lesar a verdade desportiva.
Quando pedimos um comentário a José Veiga, este limitou-se a dizer que ainda não tinha recebido qualquer notificação da FIFA e acrescentou: «A obra Alice no País das Maravilhas é um clássico do movimento surrealista e deconstrutivista do panorama literário mundial e não tem quaisquer aplicações práticas no plano futebolístico». Afirmação polémica que ainda promete fazer correr muita tinta…

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Carlos Alberto: um virtuoso imolado pela táctica

Este blog foi criado devido a uma brincadeira de amigos, visando a missão de abordar de uma forma satírica e mordaz aspectos insólitos do nosso fértil panorama desportivo português. Mas um dia, quando este blog sair da clandestinidade e aparecer orgulhosamente referenciado na PC Guia na tabela dos 50 melhores blogs da Net, gostaria que alguém dissesse que aqueles que aqui contribuem com a sua irreverência e verborreia paródica, até percebiam um bocadinho de futebol… Desde que não seja o Manuel Serrão a dizê-lo… Em frente!
Havia muitos assuntos para debater: Maxi Lopez, a primeira contratação acertada de José Veiga, o afastamento por motivos disciplinares de Derlei e de Diego, a antevisão do derby lisboeta, mas optei, como amante do bom futebol, para escrever algumas linhas sobre a já confirmada transferência de Carlos Alberto para o Corinthians por 6 milhões de euros. Quando em Janeiro de 2004, o Futebol Clube do Porto apresentou à Imprensa as suas três contratações de Inverno, as objectivas dos fotógrafos viraram-se quase exclusivamente para Maciel e Sérgio Conceição, mas aqueles que, como nós, acompanhavam regularmente as transmissões do Brasileirão no GNT e na SportTV (é verdade, preciso de arranjar uma vida rapidamente), já estavam familiarizados com o virtuosismo que Carlos Alberto espalhava no Fluminense.
Há inúmeras semelhanças entre os estilos e os percursos de Roger e de Carlos Alberto. Ambos vieram rotulados de génios da bola mas tardaram em impor o seu estilo futebolístico. No caso de Roger, tal é compreensível. Quando chegou em Dezembro de 2000 pela mão do Bibi (não, não é mais uma revelação bombástica sobre o processo Casa Pia), Roger encontrou um Benfica esfrangalhado pela saída de José Mourinho, por indisciplina no balneário e por um plantel de qualidade confrangedora em que o único que merecia a camisola que envergava era Pierre Van Hooijdonk. Nas mãos de Toni, nunca Roger conseguiu assumir a batuta da equipa muito devido ao facto do clima de desmoralização que se vivia no balneário. Jesualdo Ferreira, que percebe tanto de futebol como um pigmeu percebe de alambiques, insistia em colocá-lo a jogar na ala direita. Camacho achava que Roger dispendia mais calorias nas rapidinhas com a Marta Cruz e com a Patrícia Tavares e deu-lhe poucas oportunidades. Só com os dois empréstimos ao Fluminense é que o «Menino do Rio» se reencontrou com o perfume do seu futebol.
Já Carlos Alberto foi vítima da «Decodependência». Quando veio do Fluminense (onde era um ícone e o jogador mais destacado) e desembarcou discretamente num FCP que jogava «de olhos fechados», teve a sorte de ter sido pescado pelo melhor psicólogo do futebol português: José Mourinho. Sou daqueles que advogam que Mourinho não é um portento em questões tácticas e que neste aspecto, apenas se limitou a colocar em prática os ensinamentos que recebeu dos Mestres Bobby Robson e Louis Van Gaal. A mais valia de Mourinho reside na sua capacidade de potencializar ao máximo as capacidades mentais dos seus jogadores, de fazê-los acreditar que, com trabalho, conseguem chegar a objectivos (quase) impossíveis. Mourinho veio fazer aquilo que já Sven-Goran Eriksson fizera no Benfica: salientar que as vitórias e os triunfos resultam da empatia e do bom relacionamento que o treinador mantém com os seus jogadores, algo que Artur Jorge e Ivic nunca fizeram, pois eram apologistas do distanciamento no balneário. O único que se consegue aproximar de Mourinho nesse aspecto é Jaime Pacheco. Acredito piamente que nenhum outro treinador teria conseguido levar o Boavista ao título de campeão em 2000/2001. Se olharmos bem para o plantel do Boavistão nessa temporada, havia apenas 2 jogadores de muito boa qualidade (Litos e Petit) e 3 de nível médio (Frechaut, Silva e Ricardo). O restante plantel era composto de jogadores de qualidade sofrível como Quevedo, Erivan, Jorge Silva, Duda e Alexandre Goulart que Pacheco se encarregou de trabalhar ao nível mental, incutindo-lhes níveis de resistência e garra que estiveram na origem do seu sucesso.
Com Mourinho, Carlos Alberto tornou-se melhor jogador. Numa equipa de estrelas, Mourinho comprovou que, apesar de teoricamente um esquema táctico de sucesso só precisar de um número 10, Deco e Carlos Alberto podiam coexistir. Carlos Alberto continuava a jogar no centro e, mercê do seu talento, Deco palmilhava os mesmos terrenos, mas derivando frequentes vezes para as linhas laterais, permitindo a Alberto explanar as suas jogadas de ataque fundamentadas nos dribles sucessivos e no um-contra-um.
Claro que Roger e Carlos Alberto também têm as suas diferenças: Roger já vestiu a camisola da selecção A, mas falta-lhe um palmarés com títulos relevantes, algo que Carlos Alberto já detém com a conquista da Liga dos Campeões e da Taça Intercontinental.
Sempre defendi que a contratação de Diego foi um erro colossal por parte da SAD do Porto. Não está em causa a qualidade futebolística daquele que, juntamente com Robinho do Santos e Magrão do Palmeiras, foi a grande revelação do Brasileirão 2004. Mas quando foi impossível segurar Deco (quem é o jogador que gosta de ser agredido pelos Superdragões em plena via pública e depois ver a sua SAD tentar abafar o caso para os jornais, fazendo passar a versão de que assaltantes queriam roubar o seu telemóvel?), Carlos Alberto era o seu sucessor natural. Mas o excessivo cash-flow fez Pinto da Costa entrar em megalomanias e surgiu em cena Diego que até agora ainda nada provou (não é o golo contra o Chelsea que fará esvanecer quatro meses de exibições tristonhas e descoloridas…). E Victor Fernandez (Ou será Luiz?) pôs Diego a fazer o papel de Deco, derivando Carlos Alberto para o banco ou então para a ala direita. O já saudoso Stanley Matthews disse um dia que um jogador excelente é aquele que tem uma grande polivalência e que tanto se sente à vontade a jogar a libero, quer como ponta de lança. No futebol moderno, tal afirmação é no mínimo risível e se queremos obter o máximo rendimento de um jogador que joga na mesma posição desde os infantis, nunca podermos adaptá-lo a uma posição estranha e esperar que tudo corra bem. Fernandez incorreu nesse erro e sacrificou a técnica, velocidade e capacidade de finta do jogador, encostando-o a uma linha lateral onde, por mais do que uma vez, se tornou visível a maior limitação de Carlos Alberto: os cruzamentos.Assim, o génio sai pela porta pequena. E como é habitual, foi logo manchado por epítetos pouco abonatórios que iam desde acusações de proxenetismo até à de desestabilizador de balneários. Os adeptos fanáticos são sempre assim: uma vedeta que saia do clube sofre sempre uma rápida metamorfose: passa de intocável a dispensável numa fracção de segundo. Como benfiquista, aplaudo freneticamente a sua transferência até porque acredito que Diego ainda tardará a adaptar-se e porque Jorginho já está apalavrado com o FC Porto desde Outubro e não virá trazer nada de novo. Mas como amante do bom futebol, fico triste por ver Carlos Alberto partir. Espero que regresses a Portugal brevemente, Carlos. Desta vez de águia ao peito...

quinta-feira, janeiro 06, 2005


« Portanto, Sr. Pinto da Costa, estamos entendidos: eu mando o meu Ministro da Justiça mexer os cordelinhos para enviar a Juíza Ana Cristina Oliveira para a Comarca de Estremoz e Vossa Excelência pede aos Superdragões para deixarem de fazer chamadas anónimas para a Sede Nacional do PSD a ameaçar de morte o Dr.Rui Rio. É que no outro dia, quem atendeu o telefone foi a Leonor Beleza e ela pôs-se a chorar emocionada porque pensou que, quem estava do outro lado da linha era o filho drogado...» Posted by Hello

6 Minutos

A propósito da histórica vitória do Real Madrid sobre a Real Sociedad, em 6 minutos (tempo que faltava jogar do encontro interrompido anteriormente por alegada ameaça de bomba e que se encontrava empatado 1-1, e que o Real Madrid ganhou então por 2-1, com um golo aos 90 minutos - dos 6 que se jogaram - de penalty), lembrei-me daquela brincadeira que os miúdos da escola, putos reguilas, costumam fazer com os seus pobres amigos benfiquistas:
"Sabes qual é a única forma de o Benfica voltar a ser campeão Europeu?
Só na PlayStation!!!"
Talvez no nível mais fácil, dizem vocês, mas pegando nesta ideia, penso que se os jogos de futebol tivessem apenas 6 minutos, o Benfica seria, de facto, um forte candidato a campeão Europeu (uma espécie de Chelsea dos mini-jogos), e passo a explicar a minha teoria:
O Mantorras, que não está em condições de jogar 90 minutos como toda a gente sabe, seria um jogador temível em 6 minutos, podendo explanar convenientemente todo o perfume do seu futebol, que tem estado até agora dividido entre clínicas espanholas de fisioterapia e almoços com a equipa B (nunca percebi muito bem porque é que não o convidam para os almoços do clube). Quanto mais não seja, porque até o Mantorras teria dificuldade em se lesionar em tão pouco tempo de jogo (desde que, obviamente, não fizesse o aquecimento prévio, o que poderia agravar a sua lesão).
Já o Nuno Gomes, jogador de altos e baixos, poderia explodir nesses mini-jogos, e logo a seguir ir a correr para o cabeleireiro sem estragar a sua linda cabeleira. Custa-me muito vê-lo a sofrer, durante 90 minutos, sucessivas agressões ao seu cabelo, que se torna seco e muda de tom. Aqui o Benfica extrairia ainda benefícios económicos directos, pois a Pantene ou a Vidal Sassoon poderiam patrocinar o penteado do Nuno Gomes, que em 6 minutos mostraria ao mundo um penteado rico e viçoso, saindo depois a correr para o cabeleireiro.
O Petit, esse, em 6 minutos seria mesmo o melhor médio do mundo. E digo isso sem receio algum pois como toda a gente sabe, em 90 minutos de jogo, o Petit não consegue atingir um patamar elevado, pois as distracções são imensas: Já parti a perna àquele tipo?
Ou: Aquele está a olhar para mim com cara de mau, será da minha equipa?
Ou ainda: Olha ali aquele bonito, vou bater nele para não se armar comigo!
E o clássico: O Argel, onde está o Argel? Tenho que me por a pau senão ele acerta-me nas costas.
E, claro, o famoso: Intervalo? Porquê? Ainda não mandei ninguém para o hospital!
Em 6 minutos isso não acontecia, e o Petit podia concentrar-se exclusivamente na sua missão: bater em tudo o que se mexe e em quem quer que se atrevesse a passar a linha do meio-campo.
E chegamos assim ao golo. Sim, porque para ganhar, mesmo em 6 minutos, o Benfica teria que marcar um golo. E foi o mítico penalty do Karadas (que dava para um livro) que me veio ajudar a compor a minha teoria: Em 6 minutos o Benfica era imbatível: tudo à defesa, com o Petit a bater nos desgraçados que tentassem se aproximar da área, o Argel e o Rocha a limparem os corpos e os outros todos a ajudarem à festa.
O árbitro, esse, preocupado com os feridos, não via o Simão Sabrosa a isolar-se, pela linha e a ser nitidamente travado, em falta pelo seu atacador, à entrada da área, sendo que o seu corpo seria projectado, pelo ar, durante largos metros, até cair, inconsciente, com a cabeça em plena grande-área.
Penalty, sem margem para dúvida, que o próprio Simão iria converter, ajudado pelo Petit e pelo Argel que seguravam no guarda-redes adversário enquanto o João Pereira lhe puxava os calções até ao chão (na NBA também não se mostram posters de gajas nuas aos atletas que vão marcar os lances livres?).
E o golo era certo!
Mais uma grande vitória do clube da águia, sem margem para dúvidas.

Pôncio Monteiro e o Share do Canal Parlamento

Confesso: sou um adepto inveterado do humor «nonsense». Gosto de rir inteligentemente, ponto final. Ganhei esta mania em meados da década de 90, quando na nossa televisão havia programas cómicos decentes: na RTP, havia a reprise dos velhinhos episódios dos Monty Python, Rowan Atkinson e o seu Mr. Bean, na TVI, o sempre viciante Seinfeld e na SIC… os DONOS DA BOLA!!! Sim, Pôncio Monteiro foi um dos mentores desta nova vaga de comédia nacional contemporânea e, como qualquer visionário, foi um génio incompreendido. Tão incompreendido que ainda hoje acho estranho deslocar-me a qualquer loja da FNAC e não ver nenhum DVD dos maiores sketches de Pôncio Monteiro ao lado dos DVDS do Gato Fedorento e da série 1 do Allô Allô.
Pôncio Monteiro não caía na tentação da graçola brejeira e era isso que produzia o encanto de Os Donos da Bola. Ele protagonizava os seus números emprestando aos textos uma pseudo-credibilidade que ainda acentuava mais a irreverência cómica dos seus sketches. Quem não se recorda do episódio «Viagens ao Brasil de Carlos Calheiros» quando, no decorrer do programa, Pôncio Monteiro, gaguejando compulsivamente tentou convencer o auditório de que tudo não teria passado de um erro dos serviços contabilísticos do F.C. Porto? Mas, quando a qualidade dos argumentos começou a piorar, como grande comediante que era, Pôncio não decepcionou os seus fãs e abandonou a SIC. Não ficamos privados do seu talento por muito tempo. Paulo Catarro precisava de comediantes para um programa de sketches da RTP originalmente intitulado «Jogo Viciado». Pôncio Monteiro imediatamente aceitou o desafio de mamar na teta pública de uma televisão paga pelos contribuintes e apenas exigiu como contrapartida a mudança do título do programa para «Jogo Falado», de forma a poder agradar a todas as facções do público. A fórmula do programa assemelhava-se bastante aos velhinhos filmes dos Três Estarolas: havia o Sério (Fernando Seara), o Burro (Pedro Santana Lopes) e o Cómico (Pôncio Monteiro). E durante dois anos, o humorista portuense deu largas ao seu talento, tornando imortais a rábula da «Teoria da Intensidade» ou «Vítor Baía pode defender a bola com as mãos fora da grande área e levar apenas cartão amarelo, porque a jogada não levava perigo, pelo menos assim me afiançou o António Garrido que é insuspeito». Brilhante…
Contudo, fiquei aliviado quando soube que Pôncio Monteiro não iria integrar a lista de candidatos a deputado do PSD pelo círculo do Porto. É verdade que sou benfiquista, socialista (às vezes) e um admirador fervoroso do trabalho do Dr. Rui Rio, mas a principal razão é esta: sou um dos principais lutadores do Movimento pela Legalização da Sesta. Não estão a perceber a ligação? Eu explico: sou teledependente e até para dormir preciso da minha televisão. Haverá prazer mais supremo quando, depois de um lauto almoço de cozido à portuguesa ou favas com toucinho, poder estirar-me por completo no meu sofá para dormir uma sestazinha de 45 minutos? Ligo a televisão para chamar o sono e começo o zapping. SexyHot? Nããã… Quando as enzimas digestivas estão a trabalhar arduamente, a pornografia torna-se nojenta e além disso, não me chamo Calígula… A resposta é: CANAL PARLAMENTO!! Ouvir as intervenções de deputados tão célebres e profícuos como Gustavo Carranca e Heloísa Apolónia a discutir sobre a inconstitucionalidade de um decreto-lei é um bálsamo reconfortante e mais saudável do que uma caixa de Xanax ou de Prozac. Está provado cientificamente que dormir ao som do Canal Parlamento aumenta as probabilidades de ter sonhos eróticos e confesso que, com o advento da Quinta das Celebridades, o meu córtex cerebral expulsou a Angelina Jolie e a Jennifer Lopez, pelo que os meus sonhos acabavam sempre com a Mónica a mordiscar-me a orelha e a Paula Coelho a fazer-me fellatio.
Ora, com a eleição para deputado do Dr. Pôncio Monteiro, essas sestas paradisíacas acabariam. Devido à sua provecta idade, as probabilidades de ser escolhido para Presidente da Assembleia da República eram grandes e depois, quando ocorressem votações, o dr. Pôncio escolheria para secretários o Madureira e o Hélder dos SuperDragões e toda e qualquer votação acabaria assim: « Quem vota a favor do projecto-lei número 333 barra 2005 SLB, SLB, SLB,SLB, SLB, Filhos da P…, quem vota contra, SLB, Filhos da P… Allez, Allez, Quem se Abstém?». Ou então, quando se reunisse a 468ª Comissão de Inquérito do Acidente de Camarate, os deputados da mesa teriam de se desviar das bolas de golfe voadoras ou das cuspidelas ranhosas do Hélder. Ou, por muito improvável que fosse, se o Presidente da República quisesse fazer uma Presidência Aberta no interior e para esse efeito, levar uma comitiva de deputados em autocarros de luxo? Já estou mesmo a ver o gerente da Estação de Serviço de Figueira de Castelo Rodrigo a dirigir-se ao Dr. Jorge Sampaio nestes termos: «Vossa Excelência desculpar-me-á a impertinência, mas quem me vai ressarcir dos 340 pacotes de batatas fritas furtados, da arca frigorífica destruída a pontapés, das sanitas rachadas a golpes de socadeira e dos uniformes rasgados e com vestígios de esperma das duas empregadas de mesa espanholas que estavam aqui no âmbito de um protocolo com o Alcaide de Salamanca e que foram violadas repetidas vezes e com requintes de sadismo?». Ao que o mais alto magistrado da Nação responderia: «Faço um apelo à sua serenidade e capacidade de compreensão. Como vê, não há nada a fazer…Eles têm imunidade parlamentar…».
Se tudo isto fosse transmitido no Canal Parlamento, como conseguiria dormir a minha sestazita? Ainda por cima, quando a Paula Coelho aprendeu, finalmente, a fazer movimentos giratórios com a língua...

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Finalmente, o Blog dos Blogs !!

Já era tempo! Das centenas de blogs que pululam na nossa net, não havia um sequer que se destinasse às classes minoritárias. Não, não estou a falar dos pederastas, dos gerontófilos, dos necrófagos, dos sociopatas, dos coliformes, dos técnicos de Tomografia Axial, dos hidrópatas, dos estudantes de Densiometria Óssea, nem dos eleitores do Partido Ecologista «Os Verdes». Estou a falar de um grupo que, segundo os resultados dos Censos 2001, constituíam quase 40 % da população de Portugal Continental e Ilhas Atlânticas: nós, os que não foram abençoados pelo Grande Arquitecto com a capacidade e o talento da IMAGINAÇÃO. Nós, que somos descriminados nos transportes públicos por calçar peúgas pretas para combinar com os sapatos negros. Nós, que nos jantares de amigos, depois de termos estado calados durante três horas, somos obrigados a contar uma anedota velha que fora transmitida no dia anterior nos Malucos do Riso. Nós, que quando entrámos numa Biblioteca Pública, corremos desenfreadamente para a secção de Jornais e lutámos num duelo até à morte com octogenários de bengala e arrastadeira para termos a primazia de ler A Bola. Nós, os que telefonámos para as meninas da secção de Relax do Jornal de Notícias para esclarecer esta dúvida: numa cerimónia de baptismo, sendo a madrinha do bebé uma prostituta sifilítica, estará ela autorizada a pegar na vela segundo os cânones estabelecidos pelo Concílio Ecuménico de Messina em 1786?
Finalmente, um blog para os chatos…

terça-feira, janeiro 04, 2005

Como tudo começou...

Foi já há uns anos atrás que dois amigos, caloiros da faculdade e adeptos convictos dos seus clubes, começaram a trocar ideias (e não insultos) sobre as diferentes formas de encarar e filosofar sobre as vitórias, derrotas e peripécias do futebol português, sendo que neste peculiar confronto de ideias cada um vestia a sua camisola (uma vermelha e outra azul, diga-se).
E foi assim que, aos poucos, nasceu uma grande amizade, em torno de uma rivalidade sadia entre dois clubes.
O que começou por ser uma troca de mensagens escritas nas aulas da faculdade, cedo se tornou um vício e um desafio, e hoje passa a blog.

"Let the games begin"

As hostilidades estão abertas.